para todos com muito carinho,
História de uma amizade
Ver Joanne abriria a tampa do pote que eu lacrara com tanta raiva 20 anos antes.
(Por Beth Kephart)
Na escola secundária, minha ânsia de fazer amizades era muito maior do que meu talento para estabelecê-las. Tive uma amiga íntima e a perdi. Entre as fotos e tralhas em meu sótão não existe recordação alguma dessa garota, a não ser um livro em que ela escreveu no último dia de aula: "Juro que ainda vou rir quando você estiver casada e grávida."
Passei mais de 20 anos sem notícias dela.
Mudando aos 13 anos para uma escola nova, entendi que teria de planejar para ter amigos. Eu não era do tipo popular, por isso tive de trabalhar devagar, nos espaços vazios entre os grupinhos fechados. Ficava examinando os alunos, experimentava fazer poses, sentava-me na frente, nos fundos, no meio do ônibus. E esperava que outra pessoa também estivesse olhando e se interessasse por algo em mim.
Então apareceu Joanne, a garota com os cabelos que formavam uma renda delicada. Era mais alta do que eu e magra – as pernas sempre enroscadas em torno dos pés das cadeiras na sala de aula.
Foi simpática comigo naquela cantina horrível; em sua mesa, sempre havia lugar para mim. Graças a Joanne, aprendi a música da época. Aprendi a confiar em meu corpo e nas transformações por que passava. Aprendi a arte de trocar bilhetes na escola.
Fomos amigas íntimas durante quatro anos. Todos nos reconheciam como uma unidade. Juntas, éramos mais fortes, mais espirituosas, mais atraentes. Falávamos pelo telefone ou íamos à casa uma da outra quase todos os dias da semana. Eu lhe contava todos os meus segredos.
No último ano, confessei que estava apaixonada. Eu costumava correr e ele era um herói das provas de atletismo de meia distância, um garoto que se sentava no fundo do ônibus, os cabelos louros caindo sobre os olhos azuis, o andar pretensamente arrogante. Todos os dias depois da escola eu ia para o telefone do andar de cima repassar todos os detalhes com Joanne: como ele estava vestido, o que dissera, a velocidade da sua corrida, se chegara a resmungar um breve "oi".
Talvez ele goste de você, dizia ela.
Eu queria acreditar. Mas ele mal reparava em mim. Hoje eu sei disso.
Naquela época, porém, estava apaixonada. Tinha esperanças, rezava. Pensei que estivesse fazendo progressos. Até o dia que Joanne apareceu com ele no baile da escola.
Quando a gente assume uma posição, em assuntos de amizade, quando, com raiva, deixa tudo bem claro – Esta amizade acabou, dê o fora - , está definindo o resto da vida. Naquela época eu não percebia que não se pode fazer velhos amigos, só se pode perdê-los. E ao perdê-los, você perde parte de si mesmo.
Na minha rua há um senhor que serra os galhos das árvores para salvá-las. Mocinha, eis o meu segredo, diz ele. Tudo está no cuidado. Em cortar as partes más para salvar o todo. Quando se ama muito algo, não se permite que morra.
Sempre que eu passava por aquele homem, pensava que ele nunca teria desistido de Joanne. Teria cortado a parte ruim para conservar o resto intacto.
Por que será que precisamos de amigos, depois de nos livrarmos das implicâncias nos pátios de recreio e lanchonetes de ginásios, e das crises de identidade da adolescência? Uma vez que estamos vivendo por nossa conta, por que ainda ansiamos por amizade? Creio que os amigos nos envolvem, como um par de parênteses. Cada um nos conhece de modo diferente, cada qual nos apóia de um jeito. Sou quem sou porque minhas amizades continuam a crescer. Mas há um limite para o número de amigos que se pode ter e, principalmente, para as amizades íntimas.
Há poucos dias, num dia de setembro, o telefone tocou. Percebi que era Joanne antes mesmo que ela falasse. Reconheci o som de seu suspiro.
Fechei os olhos e procurei imaginar como ela estaria agora. Mas só consegui visualizar aqueles cabelos caindo pelos ombros, as pernas enroscadas em torno de uma cadeira de metal, os olhos redondos e úmidos como botões de flor. E lembrei-me de como estava no baile da escola e da imagem que deve ter tido de mim, com toda a minha raiva.
O pai de Joanne vira meu nome no jornal e enviara o recorte a ela, que morava a duas horas de minha casa. Ela descobrira meu telefone.
Pouco depois daquela ligação, Joanne e eu tivemos nosso reencontro. A princípio tive dúvidas se estava preparada para tornar a vê-la. Quando rompemos, restaram muitas mágoas. Havia pesares, desculpas não expressas. Como eu poderia abrir a tampa de um pote lacrado havia 20 anos?
No entanto, pensei, o que eu perderia se lhe desse as costas? Nossa história, nossa linguagem, os segredos compartilhados. Ela é minha amiga mais antiga. Sabe das minhas origens, como ninguém jamais saberá. Esta é nossa segunda chance. Envelhecemos demais para perder velhos amigos, e Joanne também sabe disso.
Depois de algumas tentativas no sentido de tornar a nos conhecer, combinamos nos encontrar na antiga feira agrícola num sábado de manhã.
Joanne está magnífica, empurrando com facilidade a cadeira de rodas da mãe no meio da multidão. Aos 38 anos, parece ter 18. Mudou, claro, mas em alguns aspectos está exatamente como a vi da última vez.
Inclino-me para falar com a mãe de Joanne. O acidente vascular cerebral que ela sofreu recentemente se revelou impotente contra seu espírito. Joanne me dirige um olhar de que me lembro, um olhar que diz muito sobre o que sente, embora nesse momento ela ria. Minha mãe, dizem os olhos de Joanne, não devia estar nessa cadeira de rodas. Ela devia estar andando ao nosso lado. No antigo código, faço Joanne entender que ouvi o que ela não disse. Sei como se sente, digo, sem palavras.
Caminhamos juntas à vontade, sem necessidade de falar. Nossos filhos andam mais adiante, no meio da multidão, e eu os chamo.
É a antiga Joanne falando, aquela que sempre dizia o que pensava, para compensar minha timidez, para me arrancar de meu ponto de vista limitado.
Quem se criou nessa região e continuou aqui, vai à feira agrícola no Sábado, e Joanne, hoje uma estranha que mora em outra cidade, espera rever alguns de nossos ex-colegas.
Cuidado com as rugas – digo. Todos envelheceram vinte anos.
Vinte anos – repete ela, sacudindo a cabeça. – Meu Deus!
Adivinhe quem é aquela ali na esquina? – pergunto, reconhecendo a mulher parada na barraca de frutas. – Lembra-se dela?
Tal como fazia na escola, Joanne começa a olhar com cuidado, até avistar a mulher. Eu quase tenho um colapso naquele momento – as recordações, o jeito de Joanne fingir ser discreta, quando na verdade olha da maneira mais óbvia do mundo.
Meu Deus! – ela exclama. – Olhe só para ela. Tem quatro ou cinco filhos. – Nós duas olhamos para a mulher examinando maçãs. – Acho que ela está na meia-idade – diz Joanne.- E nós? Como ficamos?
Provavelmente também na meia-idade – vem a resposta da cadeira de rodas.
Eu me debruço, brincando:
Não lhe perguntamos nada, mas obrigada assim mesmo.
Vou falar com ela – diz Joanne.
Ah, não, por favor. Ela sempre se achou melhor do que nós.
E por que não? – retruca Joanne. – O que temos a perder? Você ainda é a mesma covarde?
Tenho de ir ver os garotos – digo a Joanne e ela revira os olhos.
Você continua incorrigível, Beth. Incorrigível.
Divirta-se com ela – respondo, minha voz cheia de sarcasmo. – Dê lembranças minhas, OK?
Pouco depois encontro os meninos e vamos para a barraca de chocolate, defronte à barraca de frutas onde Joanne continua se divertindo com nossa ex-colega, que está desconcertada, mas agradavelmente surpresa.
Olhando para ela, no meio das pessoas, penso: Joanne, você achou o caminho de volta à minha vida, como uma folha ao vento, como uma cura. E daqui a alguns anos, quando nossa amizade tiver se transformado em algo novo e se conservado como algo antigo, eu me lembrarei deste dia.